O PLN é uma área da IA dedicada ao desenvolvimento de métodos que permitem aos computadores compreender, interpretar e produzir textos em linguagem humana | Crédito: Luis de Souza/ICMC
Tradutores automáticos, assistentes virtuais, ferramentas de correção de textos e sistemas de inteligência artificial generativa fazem parte de uma mesma área de conhecimento que vem ganhando espaço dentro e fora das universidades: o Processamento de Linguagem Natural (PLN). Entre os dias 11 e 13 de agosto, estudantes, pesquisadores e profissionais interessados no tema se reuniram no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, para participar da 1ª Escola de Processamento de Linguagem Natural (EPLN).
Realizada presencialmente no Auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, a primeira edição teve as vagas regulares esgotadas e ofereceu mais de 20 horas de atividades. Ao longo de três dias, a programação percorreu desde os fundamentos linguísticos do PLN até temas que estão no centro dos debates atuais sobre inteligência artificial, como grandes modelos de linguagem (LLMs), engenharia de prompts, treinamento e avaliação de modelos, Geração Aumentada por Recuperação (RAG), agentes e limitações e riscos dessas tecnologias. O último dia também apresentou aplicações em áreas como saúde mental e Direito.
A Escola é uma iniciativa do grupo Brasileiras em PLN (BPLN) e foi organizada pelas professoras Graça Nunes, do ICMC, e Helena Caseli, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Um dos principais objetivos foi transformar em uma experiência presencial de formação o conhecimento reunido pelo grupo no livro Processamento de Linguagem Natural: Conceitos, Técnicas e Aplicações em Português, publicação online e gratuita que conta com 46 capítulos e 118 autores.
“Uma das nossas iniciativas mais importantes foi a criação do livro de processamento de linguagem natural em português, online, gratuito e dinâmico. Essa primeira escola tem como objetivo tornar visíveis os autores desse livro e colocá-los em contato direto com o público que a gente gostaria de formar”, explica Graça. Segundo a professora, outro princípio que orientou a criação da EPLN foi ampliar o acesso ao conhecimento produzido na área. Por isso, as aulas foram gravadas para posterior disponibilização no canal das Brasileiras em PLN.
Do fundamento às aplicações da inteligência artificial
Um dos diferenciais da programação foi construir um percurso que começasse pelas bases da Linguística e do processamento computacional da língua antes de chegar às técnicas mais recentes de IA generativa. No primeiro dia, por exemplo, foram abordados conceitos de fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, discurso e pragmática, além de modelos utilizados para representar estruturas linguísticas. Nos dias seguintes, o foco avançou para aprendizado de máquina, LLMs e aplicações específicas de PLN.
A 1ª EPLN buscou oferecer fundamentos para compreender como as tecnologias de IA generativa são construídas, avaliadas e aplicadas | Crédito: Luis de Souza/ICMC
Para Amanda Pontes Rassi, doutora em Linguística pela UFSCar e coordenadora pedagógica da Redação Nota 1000, que ministrou um dos módulos da Escola, compreender esses fundamentos é essencial para quem pretende desenvolver ou utilizar tecnologias de inteligência artificial.
“É interessante entender os fundamentos dessa IA, de onde ela vem, como progrediu e como avançou a ponto de chegar às IAs generativas que temos hoje”, afirma Amanda. Em sua atividade, ela buscou mostrar como conceitos linguísticos aparecem em tecnologias presentes no cotidiano, como assistentes virtuais, sistemas de tradução automática, corretores gramaticais e ferramentas de processamento de voz.
A diversidade de formações entre os participantes também chamou a atenção da pesquisadora. Havia estudantes de graduação e pós-graduação, professores e profissionais do mercado, tanto da Computação quanto da Linguística e de outras áreas.
Para Amanda, essa aproximação é cada vez mais necessária. “Se você se fecha no seu núcleo, na sua formação inicial, fecha portas para um monte de outros conhecimentos transversais. O pessoal da Linguística tem interesse em se aperfeiçoar na Computação, assim como o pessoal da Computação precisa entender os fundamentos linguísticos para desenvolver pesquisas melhores e mais robustas”, diz.
Essa combinação foi justamente um dos aspectos mais valorizados por Mariana Gonçalves, formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestranda em Computação na mesma Universidade. Trabalhando com PLN e se preparando para iniciar o doutorado, ela veio do Rio de Janeiro especialmente para participar da Escola.
“O que eu gostei bastante é justamente de ter o pessoal de Letras e de Linguística junto com o pessoal de Computação. Normalmente, os núcleos são bem separados. Aqui estou vendo uma oportunidade de diálogo muito viva”, conta Mariana. Ela também pretende compartilhar o conhecimento adquirido com o grupo de estudos em processamento de linguagem natural do português que mantém na UFRJ.
Português brasileiro no centro das pesquisas
Além de apresentar conceitos gerais da área, a EPLN teve como um dos seus eixos o desenvolvimento de tecnologias voltadas especificamente ao português brasileiro. A proposta responde a um desafio da área: muitos dos modelos mais conhecidos atualmente são desenvolvidos a partir de grandes volumes de dados em inglês, enquanto as particularidades linguísticas, sociais e culturais do português falado no Brasil demandam pesquisas próprias.
Professor do ICMC e um dos docentes da Escola, Thiago Pardo destaca que esse é um dos grandes desafios científicos do PLN atualmente. “Não basta ter boas ferramentas e bons softwares; a gente quer coisas que funcionem para o português. Estamos no Brasil e temos uma variedade enorme de sotaques e variações do idioma. Queremos sistemas que funcionem para o sotaque nordestino, do Sudeste, do Norte, do Sul e assim por diante”, explica.
Pardo também ressalta o papel do ICMC na realização da primeira edição. O Instituto abriga o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), que reúne uma longa trajetória de pesquisas em PLN. Para o professor, uma escola como a EPLN ajuda tanto a apresentar a área a novos interessados quanto a criar conexões entre universidade e sociedade.
“Eu gostaria muito que a Escola abrisse portas para todo mundo, que fosse o básico para que quem queira trabalhar ou pesquisar na área saiba de onde partir, conheça as referências principais e as principais linhas de trabalho”, afirma. “A gente também gostaria que isso fosse uma fonte de colaborações e oportunidades futuras para alunos interessados em pós-graduação e para empresas que querem fazer elos mais fortes com a pesquisa e com a universidade.”
Experiência para diferentes trajetórias
Entre os participantes estava também Karina Mayumi Johansson, pesquisadora e engenheira de machine learning no SiDi, que já atua profissionalmente com PLN. Para ela, participar da Escola foi uma oportunidade de retornar aos conceitos que sustentam as aplicações atuais.
“É muito importante aprender sobre a aplicação, sobre o que a gente utiliza no final, mas também é importante resgatar a base. A partir dela fazemos todo o conhecimento aplicado, para não ficarmos focados somente na aplicação e esquecermos os fundamentos”, afirma Karina.
A experiência também atraiu profissionais que estão se aproximando mais recentemente do tema. Egresso do ICMC, e Orlando Júnior trabalha com agentes conversacionais e decidiu participar depois de conhecer a iniciativa por meio do curso.
“Eu achei muito bom e muito bem estruturado. Realmente são muitos anos de experiência de quem está aqui dando o curso”, avalia. Para Orlando, a programação mostrou a dimensão do campo que ainda pode explorar: “Confirma muita coisa que eu sabia e mostra que tem bastante coisa para aprender, além da oportunidade de conhecer pessoas com uma autoridade construída ao longo de 20, 30 anos na área.”
Ao reunir pesquisadores experientes, estudantes e profissionais de diferentes formações, a primeira EPLN buscou, assim, não apenas apresentar ferramentas em evidência no universo da inteligência artificial, mas oferecer fundamentos para compreender como essas tecnologias são construídas, avaliadas e aplicadas. Uma formação que, para Graça Nunes, se torna cada vez mais necessária diante da velocidade com que a área avança.
Evento reuniu profissionais de diferentes áreas e tempo de experiência | Crédito: Luis de Souza/ICMC
“A gente pega pesquisas muito atuais, do que está acontecendo agora, e divulga de uma maneira concentrada em três dias. A pessoa consegue elevar rapidamente o seu nível de conhecimento”, resume a organizadora.
Yves Vieira, da Fontes Comunicação Científica







