
15 projetos foram apresentados no evento de inovação Zero to One Day 2025 (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Enfrentando desafios contemporâneos como a soberania tecnológica e a credibilidade do mercado de carbono, dois projetos de pós-graduandos do Mestrado Profissional em Matemática, Estatística e Computação Aplicadas à Indústria (MECAI) foram reconhecidos pelo Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU). O reconhecimento ocorreu no evento Zero to One Day, realizado no dia 6 de dezembro na Fundação Estudar, em São Paulo.
O evento marcou a etapa final do Zero to One, programa de pré-aceleração de empresas de base tecnológica (startups). Em primeiro lugar ficou a Orbit, criada pelo pós-graduando Eduardo Pacheco. Já a Carbon Verify, desenvolvida por Reynaldo Pereira Martins em parceria com Fábio Luiz, também ganhou destaque entre os finalistas. As iniciativas nasceram ou se consolidaram no âmbito do MECAI, programa do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, que busca ser um elo entre problemas reais e soluções que transitam entre pesquisa aplicada, tecnologia e inovação.
Para o professor Francisco Louzada Neto, do ICMC, o desempenho dos projetos no programa do NEU é simbólico. “Esse reconhecimento evidencia como ideias bem estruturadas, aliadas ao esforço e à curiosidade dos nossos alunos, podem gerar impacto real e transformar contextos. Acompanhar esses desdobramentos é motivo de grande orgulho”, ressalta.
Já o professor Cláudio Toledo, vice-coordenador do MECAI, afirma que os resultados mostram a capacidade dos alunos de articular formação acadêmica, visão de mercado e execução. “Eles se inscreveram no edital do NEU por iniciativa própria, o que revela uma inclinação genuína para o empreendedorismo e para a criação de soluções com impacto real”, observa o docente.

O projeto de Eduardo Pacheco ficou em primeiro lugar, destacando-se por demonstrar vantagens competitivas em relação às soluções oferecidas pelas grandes empresas de tecnologia (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Programa de pré-aceleração ― Para participar do programa, alunos e empreendedores da USP interessados precisam se inscrever em um processo seletivo anual. As inscrições incluem o preenchimento de um formulário e o envio de um vídeo curto, no qual a equipe deve abordar temas como o surgimento do grupo, por que escolheram o mercado de atuação, o que motivou a candidatura, o contato com o setor e os problemas que desejam resolver.
Após essa etapa inicial, os projetos passam por uma triagem que resulta na seleção de 32 equipes. Os classificados obtêm acesso a uma rotina estruturada de pré-aceleração, formada por mentorias especializadas, oficinas temáticas, bancas intermediárias de avaliação e atividades de modelagem de produto e negócio. A proposta é que, ao longo do programa, as equipes evoluam de uma ideia embrionária para uma solução demonstrável, com hipóteses validadas e narrativa clara para o mercado.
Reynaldo destaca que essa etapa foi decisiva para o amadurecimento técnico da apresentação e do próprio produto. “O trabalho de mentoria foi essencial para converter a ideia em uma proposta atraente e viável, tornando a comunicação do projeto mais clara e orientada ao mercado”, observa o pós-graduando.
De acordo com Ingrid Cardoso Magalhães, aluna do MBA em Negócios Digitais da USP e uma das mentoras do programa de aceleração, após meses de mentorias e pré-seleções, apenas 15 projetos foram selecionados para a apresentação final. Diante de investidores-anjo, consultores do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), representantes do ecossistema de inovação paulista e membros da universidade, os alunos do MECAI tiveram poucos minutos para defender sua solução e validar as hipóteses diante da banca avaliadora.
O evento também funcionou como espaço de networking e convergência entre a pesquisa acadêmica e o setor produtivo. Segundo os participantes, essa etapa evidenciou o potencial de mercado das propostas apresentadas. “Embora o Carbon Verify ainda estivesse em estágio embrionário, com aproximadamente dois meses de desenvolvimento, superou startups mais maduras na competição, o que indica forte aderência à dor de mercado e à urgência da solução proposta”, ressalta Reynaldo.
Após a vitória, a startup de Eduardo passou por uma fase de rápida expansão, chegando a mudar de nome para Boto IA. “A mudança do nome representa a evolução natural do trabalho. Sai da esfera da pesquisa para se tornar uma solução com ambições comerciais claras, preparada para atender demandas reais de segurança, privacidade e soberania digital”, pontua Eduardo.
O pós-graduando conta que está em busca de recursos, através de investidores privados e editais de fomento, mas afirma que a startup seguirá adiante mesmo sem capital externo imediato. “A maior parte do capital de R$ 750 mil apresentados no pitch se destina à contratação de pessoal e à aquisição de infraestrutura, mas sem esse investimento, conseguimos seguir com a startup, embora em um ritmo mais lento”, alega.
Boto.IA (Ex-Orbit) ― A ideia de criar a startup Boto.IA (ex-Orbit) surgiu quando Eduardo, que já atuava como cientista de dados e consultor, percebeu que as soluções de gigantes como OpenAI apresentavam problemas críticos para empresas e governos. Entre eles, a imprevisibilidade dos custos, já que esses provedores internacionais cobram por volume de processamento, o que torna a operação mais cara conforme a empresa aumenta sua produção.
Outro ponto sensível está ligado aos riscos de privacidade, pois o envio de dados para servidores externos pode violar legislações, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e expor informações estratégicas. Por fim, há a dependência tecnológica, que pode limitar a autonomia de países e organizações quando serviços essenciais estão sujeitos a barreiras regulatórias, comerciais ou geopolíticas.
“O Boto.IA surgiu para enfrentar esses desafios e tem um teor claramente soberanista. O objetivo é que o Brasil tenha controle sobre seus próprios dados, sem depender de serviços estrangeiros”, destaca Eduardo. Dessa forma, o projeto prevê que o Boto.IA funcione como um servidor de inteligência artificial (IA) instalado dentro da infraestrutura do cliente, ou seja, em vez de enviar dados para a nuvem, o processamento ocorre localmente, com modelos mais leves, especializados e eficientes, treinados para o português.
Outro diferencial do Boto.IA está no modelo de negócio, pois, em vez de cobrar por volume de uso, a startup trabalhará com assinaturas mensais que variam conforme o setor. “Essa escolha permite previsibilidade financeira e elimina o custo variável por token, que costuma ser o principal fator de escalonamento de despesas em soluções baseadas em nuvem”, afirma o pós-graduando do MECAI.

Reynaldo Pereira Martins e Fábio Luiz afirmam que a conquista demonstra o potencial dos alunos do MECAI em transformar conhecimento acadêmico em produtos viáveis para o mercado e a sociedade | (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
O projeto também prevê uma rede de processamento distribuído entre clientes. Caso uma empresa precise de mais capacidade do que aquela que possui instalada, ela pode utilizar o processamento ocioso de outros participantes da rede. O cientista de dados diz que essa possibilidade cria um ecossistema colaborativo de IA dentro do país.
A vitória facilitou a entrada da Boto.IA em outros ecossistemas de aceleração de startups, como o NVIDIA Inception e o programa da Amazon Web Services (AWS), AWS Activate, por meio do qual obteve US$ 10 mil em créditos. De acordo com o pós-graduando, o reconhecimento no Programa de Aceleração da USP propicia um aval de qualidade para os possíveis investidores.

A Orbit (que recentemente alterou seu nome para Boto.IA) é uma startup de tecnologia focada no fornecimento de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Carbon Verify ― Já o projeto Carbon Verify é resultado direto de uma disciplina do MECAI intitulada IA Aplicada à Indústria, ministrada pelo professor Cláudio Toledo. Nela, os alunos apresentaram um estudo sobre camadas de consciência para IA aplicadas ao mercado de carbono.
Esse mercado, criado a partir do Protocolo de Kyoto, em 1997, estabelece mecanismos de compra e venda de créditos de carbono. Na prática, países que conseguem reduzir ou remover gás carbônico da atmosfera ― como é o caso do Brasil, que tem uma grande reserva florestal ― passam a poder comercializar esses créditos. O objetivo desse sistema é reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa. “O professor Cláudio gostou muito da ideia e, no semestre seguinte, nós nos inscrevemos para participar da aceleração de startups do NEU”, conta Fábio, que trabalha na Fundação Cultural de Estudo e Pesquisa e Inovação (FADEX).
Assim, a Carbon Verify pretende ser uma plataforma de verificação de ativos ambientais, avaliando sua qualidade, integridade ambiental e viabilidade comercial.
Segundo o pós-graduando Reynaldo, que atua como coordenador de Dados e TI da Vopak, a plataforma pretende entregar laudos de créditos de carbono de forma 15 vezes mais rápida do que ocorre nas auditorias tradicionais e com custos 70% menores: “Nosso público-alvo são os europeus, devido às suas regulamentações ambientais mais avançadas em comparação com o Brasil”.
Após participarem do Zero to One, os pós-graduandos avaliam que suas ideias estão mais maduras e, dessa forma, planejam inscrever suas startups em outros editais de aceleração e fomento. Entre as oportunidades mapeadas está o Programa de Fomento à Inovação e ao Empreendedorismo na Pós-Graduação Ciência que Tranforma, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP (PRPG) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU).

O Carbon Verify foi pensado para ser uma plataforma de verificação prévia e diligência para compradores corporativos de créditos de carbono (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica
Sob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Mais informações
Acesse o site do MECAI: https://www.icmc.usp.br/pos-graduacao/mecai
Conheça o edital da PRPG/PRCEU: https://bit.ly/3Nlsy8D
Conheça mais do projeto Zero to One do NEU: https://www.uspempreende.org/zero-to-one-2025
Acesse o Boto IA: https://www.boto.ia.br/
Entre em contato com Eduardo Pacheco: eduardo.pacheco@boto.ia.br ou eduardo.caruso.pacheco@usp.br
Entre em contato com Reynaldo Pereira Martins e Fábio Luiz: falusoal@usp.br






