O pesquisador escolheu São Carlos como estudo de caso devido à trajetória da cidade na área de ciência, tecnologia e inovação,
marcada pela presença de universidades, centros de pesquisa e empresas de base tecnológica (Crédito da imagem: Michael and Franzie/Flickr)
Maior país da América Latina em população e economia, o Brasil ocupa atualmente a vice-liderança regional no Global Innovation Index (GII), principal ranking internacional de inovação elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO). Em 2025, o país aparece na 52ª posição, à frente do México, mas atrás do Chile, que ficou em 51º lugar.
O dado chamou a atenção do pesquisador Tadeu Luciano Seco Saravalli, que transformou o inconformismo em um projeto de pós-doutoramento desenvolvido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. “Eu me perguntei como o Brasil, com toda a sua infraestrutura, universidades e investimentos em pesquisa e inovação, mesmo assim, aparece atrás do Chile em indicadores ligados à propriedade intelectual e ao registro de patentes. Os dados despertaram meu interesse em entender onde estão essas lacunas e o que pode ser feito para aproximar a produção científica brasileira da inovação aplicada”, explica o pesquisador.
Intitulado Direito + IA: Conectando a Propriedade Intelectual nos Ecossistemas de Inovação das Cidades Inteligentes, o projeto está vinculado ao Instituto Nacional de Inteligência Artificial para o Bem Social (IAPROBEM) e ao Centro de Pesquisa Aplicada Inteligência Artificial Recriando Ambientes Cidades Inteligentes (IARA), coordenados pelo professor André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, diretor do ICMC.
Relatório Global Tech Ecosystem Index 2025 destaca os principais polos globais de inovação;
entre as cidades brasileiras, São Paulo aparece na 49ª posição (Crédito da imagem: Reprodução Tese)
A proposta é, a partir da realidade de São Carlos, entender por que parte do conhecimento produzido em universidades brasileiras ainda encontra dificuldade para se transformar em inovação aplicada, patentes e tecnologias incorporadas pela sociedade. Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) aparece como uma das principais ferramentas capazes de conectar pesquisa científica, gestão pública e desenvolvimento tecnológico.
Dessa forma, Tadeu quer investigar como sistemas baseados em IA podem contribuir para o fortalecimento dos chamados ecossistemas de inovação, ambientes formados por universidades, empresas, centros de pesquisa e poder público, ampliando a geração de soluções tecnológicas, novos modelos de negócio e aplicações voltadas às cidades inteligentes. Além disso, o estudo procura compreender como o Direito de Propriedade Intelectual pode ajudar a proteger e estimular essas inovações, especialmente em áreas ligadas à inteligência artificial, em que discussões sobre patentes, softwares, dados e direitos autorais têm ganhado espaço no Brasil e no exterior.
De acordo com André de Carvalho, o projeto está alinhado a diversas metas do Projeto Acadêmico Institucional do ICMC para o ciclo 2023-2027. “O projeto vai ajudar o ICMC a fortalecer esse papel não apenas como centro de excelência acadêmica, mas também como um ambiente de inovação aplicada, capaz de gerar contribuições que tragam benefícios sociais e econômicos", afirma o orientador da pesquisa.
São Carlos foi escolhida como enfoque do projeto por concentrar universidades, centros de pesquisa, empresas de base tecnológica e por ter sido a primeira cidade a ter um parque tecnológico. Assim, segundo o pós-doutorando, será possível analisar o micro e o macro ao mesmo tempo, entender as lacunas locais e também refletir sobre os desafios nacionais.
A pesquisa é viabilizada por uma bolsa de pós-doutorado vinculada ao Instituto Nacional de Inteligência Artificial para o Bem Social
do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (Crédito da imagem: Reprodução site MCTI)
IA, cidades e soberania tecnológica - A pesquisa teve início em março deste ano e deve se estender por um ano. Além de analisar indicadores locais, o pós-doutorando pretende mapear políticas públicas, estratégias de inovação e possíveis gargalos relacionados ao uso de inteligência artificial e à proteção da propriedade intelectual no ambiente urbano.
Segundo o professor André de Carvalho, a pesquisa também discute a importância da soberania tecnológica. “Desenvolver soluções próprias de inteligência artificial tornou-se uma questão estratégica para o Brasil, especialmente diante da crescente dependência de tecnologias produzidas por grandes potências internacionais”, frisa.
Advogado de formação e com experiência na gestão pública, incluindo passagem como assessor no gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Tadeu destaca ainda que o atual cenário geopolítico, marcado pela disputa tecnológica entre os Estados Unidos e a China e pelas recentes medidas tarifárias adotadas pelo presidente norte-americano Donald Trump, acaba pressionando países a se alinharem economicamente, o que impulsiona as cidades no sistema internacional.
Nesse contexto, conforme ele demonstrou na tese O Estado Disruptivo: Perspectivas da Paradiplomacia de Dados para Cidades Inteligentes e Sustentáveis, defendida em 2025 na Universidade Estadual Paulista (Unesp), as cidades passam a assumir um papel cada vez mais relevante. “As cidades inteligentes e sustentáveis, que investem em transformação digital, IA e inovação disruptiva, conseguem fortalecer seu ecossistema local. O poder público local passa a atuar como protagonista desse processo, articulando universidades, empresas e políticas públicas”, explica.
Segundo ele, esse movimento também amplia a capacidade de atuação internacional das cidades, fenômeno conhecido como paradiplomacia. “Quando a cidade se moderniza e fortalece seus indicadores de inovação, ela ganha capacidade de estabelecer cooperações, atrair investimentos e participar mais ativamente de redes e discussões internacionais”, alega.
O pesquisador afirma que a discussão também dialoga diretamente com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com o debate sobre regulamentação da IA no Congresso Nacional e com os desafios envolvendo direitos autorais, proteção de dados e desenvolvimento tecnológico. “Vários setores do Brasil estão aguardando essa regulamentação, há um capítulo no projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados sobre propriedade intelectual que faz falta em vários aspectos e em várias atividades”, ressalta o pesquisador.
Tadeu Saravalli concedeu uma entrevista sobre o tema de sua pesquisa ao podcast Brújula paradiplomática,
da Universidade de Guadalajara, no México (Crédito da imagem: Reprodução site Puntos Cardinales)
Repercussão internacional - Poucos meses após a defesa de sua tese de doutorado na Unesp, o pesquisador foi convidado pela Universidade de Guadalajara, no México, para participar de uma entrevista sobre o conceito de “estado disruptivo”, desenvolvido em sua pesquisa. Na oportunidade também teceu comentários sobre o projeto de pesquisa do pós-doutoramento. “A tese foi publicada em março deste ano e logo recebi esse convite, que mostra o interesse por novos paradigmas e temas relacionados à paradiplomacia, aos governos locais e aos atores não estatais”, diz.
Para Tadeu, o desafio agora é compreender como as cidades brasileiras podem transformar conhecimento científico em soluções aplicadas capazes de gerar impacto econômico e social. “O Brasil figura em excelente posição internacional no quesito de publicação de artigos científicos. O desafio é desenvolver a pesquisa e o entendimento de como transformar essa produção em negócios e oportunidades à sociedade”, finaliza.
Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica
Sob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Mais informações
Leia a tese do pesquisador: O Estado Disruptivo: Perspectivas da Paradiplomacia de Dados para Cidades Inteligentes e Sustentáveis
Saiba como o IARA está estruturado: iara.icmc.usp.br
Acesse o ranking global de inovação de 2025: https://www.wipo.int/web-publications/global-innovation-index-2025/en/index.html
Acompanhe a entrevista que o pesquisador concedeu ao podcast da Universidade de Guadalajara: https://puntoscardinales.com.mx/2026/05/09/el-estado-disruptivo/
Acesse o Projeto Acadêmico Institucional do ICMC 2023-2027: https://bit.ly/projetoacademicoinstitucional
Leia o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) https://drive.google.com/file/d/1CsEqi6W_As9JmLrDlIrKKtkjcj0PTEIw/view




